domingo, 4 de outubro de 2009

TATEANDO NA ESCURIDÃO?

Para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós” (Atos 17:27)



Podemos traçar uma história da teologia brasileira, analisando as letras das músicas em cada período desde que os protestantes pisaram o solo nas terras tupiniquins. Houve a época dos hinos do cantor cristão que revelavam uma teologia do “pobre pecador”, onde a salvação era o único motivo de júbilo. Éramos capazes de chorar pelo simples fato de sabermos que Cristo morreu por nós. Isso nos bastava. Depois a teologia tomou consciência da batalha espiritual e os refrões passaram a ser “pisa no inimigo”, “marchando pra batalha”; então aderimos ipsis litteris às estratégias de guerra, hierarquia de comandos e nomenclaturas usadas em qualquer exército para guerrar contra o diabo. Juntamente com a batalha espiritual, a teologia percebeu que o crente não é tão verme e miserável como o hinário dizia, e começamos a cantar “vitória”, “sucesso”,”sou próspero”, “ir mais além, romper, ousar" e pasmem, "surpreender o Teu Coração”, aí incorporamos a linguagem empresarial, palestras motivacionais, markenting agressivo, postura de executivo e exploração do mercado nas igrejas; sem falar no período romântico e apaixonado que surgiu com letras tipo “deitar no teu colo”, “cheirar teus cabelos” , “olhar nos teus olhos”, etc.; o resultado deste último ainda não sei aonde vai dar, mas espero mais abraços, beijos e afagos entre os irmãos. De fato, as músicas possuem lindas melodias e arranjos primorosos, no entanto, pecam nas letras.

Pretendo aqui destacar outro enfoque de uma teologia perigosa que está subliminar nas letras das atuais músicas que cantamos. Uma evidência de que o fazer música evangélica no Brasil, está passando de largo do estudo coerente da teologia – pelo menos da teologia ortodoxa – e de que não há uma preocupação com a interpretação e coerência bíblica. De maneira que não encontro pistas de quais referenciais uma boa parte de nossos cantores estão usando para compor.

Tenho visto nestes últimos tempos, que a teologia de algumas músicas - a qual só reflete a teologia que vem dos púlpitos - tem exposto uma postura mais vétero-testamentária do que a revelada pelo Novo Testamento. A maioria dos refrões das músicas expressa uma verdadeira tateação no escuro para encontrar Deus: “tenho sede e fome de ti”, “vem Senhor, vem Senhor...” “desce do teu trono...”, “...toque no altar...”; frases que na verdade mostra uma mentalidade mais deísta (posição adotada pelo racionalismo do sec. XVIII), cujo argumento é de que Deus está transcendentalmente bem distante de nós, fora do mundo e de difícil acesso, do que a da imanência onde diz que Deus está em nós, vive em nós, afirmada por Jesus e os demais autores do NT. Um exemplo de que os ministérios de louvor ainda estão na consciência do Velho Testamento é o chamado movimento dos levitas, onde um grupo seleto, privilegiado, o Ministério de Louvor - tal qual o Levítico, Crônicas e etc. - é responsável em conduzir a igreja em adoração e se isso não acontecesse, lembro-me, ficávamos com a culpa pelo fracasso pelo resto da semana. Ora, isto é estritamente do judaísmo antigo e presta um desserviço à idéia do sacerdócio universal, onde todos, sem exceção, podem oferecer a Deus, por meio de Jesus, "sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome"(Hb.13:15). Mas nossa teologia musical retirou o direito do povo de, por si mesmo, louvar a Deus e o tornou especializado, profissional novamente, tal qual a família de Levi, como também é aristocrática a mediação do pastor-sacerdote.

Jesus disse "se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada" (Jo. 14:23) ou então que estaria conosco “todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28:20); Paulo diz que, embora os homens estejam tateando em busca de Deus, este está bem perto deles; E, quanto aos discípulos de Jesus, o mesmo disse que o reino estaria DENTRO deles, Joaõ 1:16 diz “E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça”; outro texto importante é 1Jo. 2.20 que diz “e vós tendes a unção do Santo, e sabeis tudo”; além destes, dezenas de textos do Novo Testamento dizem que Deus HABITA nos discípulos pelo Espírito Santo que lhes fora "derramado", ou seja, eles se tornaram morada e habitação da divindade. Não é absurdo, morrer de sede quando se já está mergulhado na água? Redundantemente a teologia da Nova Aliança diz que Deus não só está perto, mas habita no cristão todos os dias.

Então, qual a razão - de acordo com a análise que faço das letras de algumas músicas - de estarmos vivenciando uma relação com Deus mais parecida com a Velha Aliança e não com o novo pacto que Jesus fez com os homens na cruz? Por que e para que tanto esforço, desespero, sede e fome de Deus se ele está tão acessível? Ou não? A encarnação de Jesus já não nos basta e não reatou a amizade? Está escrito a respeito do Senhor em Colossenses 1:15, 19 “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação”; e “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse”, ainda, “estais perfeitos nele”(Col 2:10). A questão é: baseado nesses textos e em outras dezenas do Novo Testamento, essa procura por uma intimidade, uma reconciliação, essa tateação da qual Paulo fala já não deveria estar resolvida pela revelação da plenitude de Cristo?

Parece que a consciência cristã brasileira está mais para a religião oriental ou o erro do gnosticismo antigo, o qual é uma versão da filosofia platônica de que as paixões do corpo obscurecem a alma, tornando-o um impedimento para o pleno conhecimento das idéias. Tanto um quanto o outro defendem a maldade da matéria, cuja essência dificulta o encontro do homem com Deus. Uma vez que o corpo é mau, é necessário para a alma uma libertação, através de muito esforço para galgar degraus de purificação, de maneira que os impedimentos carnais e materiais devam ser afastados para que, uma vez a alma tenha se tornado um espírito de luz possa ser aceita por Deus. Doutra maneira tal união é impossível. Ora, o novo testamento é profundamente original neste quesito, pois rejeita a transcendência radical do Deus-distância do Judaísmo, por um lado, enquanto nega que a matéria e o corpo são maus, segundo os gnosticos, por outro, uma vez que Deus, no primeiro momento encarna pra viver entre os homens e, no segundo momento, vem por meio do Espírito Santo para habitar neles. Será que a espiritualidade brasileira ainda é judaizante e gnóstica?

Utilizei o exemplo das letras das músicas, mas como já falei acima que, como a música só reflete a teologia, uma boa fatia do segmento evangélico está viciada nesta visão. E é assim que percebo um fenômeno estranho, mas factível, que é o fato de sempre voltarmos à religiosidade, à força dos rituais e ao esforço extremo de aplacar a ira da divindade e tentar uma reconciliação quando a própria divindade já decretou: “livre acesso!!!”. O que dizer desses textos a seguir: “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Rm 5.1-2); “Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito” (Ef 2.18); “No qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele” (Ef 3.12); “de maneira que, irmãos, somos filhos, não da escrava, mas da livre” (Gl 4.31); “E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus, a vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora, contudo vos reconciliou” (Col 1:20-21); e o clássico: “tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10:19-20).

Desculpem-me a exaustão com os textos, mas é necessário ser enfático nisto, visto que muitos estão vivenciando uma espiritualidade muito mais baseada em Atos 17:27 do que em Hebreus 10:19. De forma que, de maneira bastante imperceptível, voltamos a pregar e a cantar novamente uma separação de Deus que só pode ser religada por uma série infindável de novos rituais, sacrifíocs e muito esforço, achando que estamos na mais correta teologia. Voltamos a pôr o “fardo dos fariseus” nas pessoas, do qual Jesus fala em Lc 11:46: “E ele lhe disse: Ai de vós também, doutores da lei, que carregais os homens com cargas difíceis de transportar, e vós mesmos nem ainda com um dos vossos dedos tocais essas cargas”. Assim, precisamos ainda de muitas “justificações da carne” (Hb 9.10), muitos choros e rogos, muitos pedidos de clemência para que Deus “desça?” sobre nós e nos "aceite?". Isto é o que Paulo chama de rudimentos do mundo (Col 2:8) para podermos nos achegar a Deus.

Parece que, a despeito de toda a obra de Cristo para nos reconciliarmos com Deus conforme 2Co 5:19, e do conhecimento que temos de sua redenção, estamos ainda na mesma condição dos homens que ainda não o conhecem “procurando o Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar”; ou como os judeus leigos que temiam adentrar no santuário porque era proibido ou devido ao medo. Estamos cantando o Javé do monte fumegante, cujas palavras tememos e não suportamos, e não ao Jesus do monte da transfiguração, mediador de uma Nova Aliança.

Paulo entendia muito bem que toda a auto-suficiência e todo esforço humano é fútil e fadado ao fracasso para este empreendimento e, creio ser isto a “ferida narcísica” que Cristo fez naqueles que confiam na própria força para realizar a espiritualidade cristã. Paulo diz aos judeus que eles não poderiam fazer nada pela redenção; eram impotentes quanto a isso; ele argumenta em Romanos 10:5-7:

Ora Moisés descreve a justiça que é pela lei, dizendo: O homem que fizer estas coisas viverá por elas. Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) Ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo.)

Quanto à redenção, nenhum ser deste mundo ou de outro poderia “trazer do alto a Cristo” ou seja, fazê-lo encarnar, ou “trazê-lo dentre os mortos” ou seja, fazê-lo ressuscitar. Portanto, para Paulo, Deus executou tudo o que concernia à problemática da reconciliação; não há nada que o homem possa fazer, a não ser o fenômeno simples do crer e viver conforme o mesmo:

Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. (Romanos 10:8-9)

E é exatamente isso – essa simplicidade do crer – que deve incomodar a muitos. Os que “confiam na carne”, no mérito, nos poderes da existência e nas suas instituições não a aceitam. Ora, Paulo sabia muito bem o que era tentar encontrar Deus no esforço próprio, conforme ele faz o contra-ponto de si mesmo em Filpenses 3; Ao lermos este capítulo, concluímos que a pior coisa para um religioso meritocrático é ouvir a seguinte frase: “porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne”(Fp 3:3)

O religioso meritocrático, ou seja, o que acredita no poder do mérito de sua conduta e de seus rituais vai estar sempre “buscando ao Senhor, se porventura, tateando, o possa achar”, ainda que não está longe de cada um deles. Por isso, retirei da minha percepção teológica e do meu evangeliquês qualquer insinuação que negue a reconciliação da cruz e o livre acesso que tenho a Deus por meio de Jesus, além de não ouvir mais músicas que contenham frases como “preciso de ti”, “desesperado, por mais de ti”, “tenho fome e sede de ti”, “vem Senhor, encher este lugar” e outras do gênero, porque, comparadas à verdade do Novo Testamento onde Deus "faz morada" em mim, tornam-se, no mínimo, uma contradição de termos.

Não estou tateando na escuridão, nem desesperado, buscando um Deus inacessível, que se esconde e que me mata de fome e sede de sua presença; Creio na Palavra que diz que Cristo é Deus conosco, e que sou casa de Deus todos os dias da minha vida “até a consumação dos séculos”.